O chamado Bullying vem trazendo muita preocupação para pais e educadores
Esse fenômeno que gera violência explícita que culmina em situações de massacre tem gerado grande discussão dentro das instituições de ensino de todo o mundo. A palavra é de origem inglesa e designa “desejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa e colocá-la sob tensão”. O termo conceitua comportamentos agressivos, anti-sociais e de agressões explicitas e maldosas a uma vítima indefesa, adotado por um ou mais alunos, causando-lhe dor, angústia e sofrimento. Para entender um pouco mais sobre essa forma de violência, entrevistamos a psicóloga Suedina Brizola Rafael Rogato, veja a entrevista completa.
Conhecimento – O que é o bullying?
Suedina – As vítimas são escolhidas em virtude de um traço de comportamento que o agressor julga como fraco ou alvo de zombação. A vítima é percebida como “bode expiatório”, pois é alvo de ataque de agressão por alguma frustração, experiência não resolvida ou trauma do agressor. Entre as causas para explicar o comportamento do agressor estão: carência afetiva, ausência de limites, modo de afirmação do poder dos pais sobre os filhos quando utilizam práticas educativas de maus-tratos.
Conhecimento – Que tipo de atos agressivos são praticados pelo bullying?
Suedina – Entre os comportamentos que os agressores do Bullying praticam estão: insultos; intimidação; apelidos cruéis; gozações que magoam; acusações injustas; atuação sempre em grupo; ridicularizam; hostilizam e infernizam a vítima aponto de causar abandono escolar. Há um caso registrado numa escola pública do Rio de Janeiro de um menino morto na sala por colegas que praticavam o bullying. Há um caso próximo de nós, também de uma escola pública, de alunos que praticaram bullying defecando na caixa d’água da escola colocando a saúde de todos os alunos em situação de risco.
Conhecimento – O bullying é um fenômeno que só ocorre nas escolas?
Suedina – O bullying acontece na grande maioria nas escolas e continua fora delas, sendo que as agressões são produzidas de forma repetitiva em um longo período de tempo. Elas acontecem por apresentar-se quase sempre como uma relação de desequilíbrio de poder. Sempre iniciam sem motivações evidentes, ganhando força à medida que os outros alunos aderem às chacotas e humilhações com a vítima e culmina com comportamentos ofensivos e danosos. O agressor tem poder e consegue manipular outros alunos a segui-lo. Muitas vezes alguns alunos aderem por pressão ou por não querer ser o próximo alvo das humilhações e agressões.
Com o acesso a Internet, hoje, temos o cyberbullying que é a prática da violência on-line. As grandes vítimas têm sido os professores (porém, os alunos vítimas também não escapam da rede), que são xingados e sofrem enquetes sobre seus vestuários, condutas, falas e possíveis apelidos que denigrem a figura do educador. Qualquer coisa que se refira a um determinado professor que eles queiram agredir serve de alvo para colocá-lo em situação de humilhação. Aqui em Ourinhos já tivemos alguns alunos praticando o cyberbullying com professores da rede estadual de ensino.
Conhecimento – Que tipos de danos o bullying pode gerar?
Suedina – As vítimas podem ter prejuízos nas relações de trabalho, em sua futura constituição familiar e na educação dos filhos. Interfere na saúde física e emocional. Em alguns casos, mesmo com tratamento, a vítima não consegue superar os traumas e desencadeia transtornos psicológicos, tais como pânico, fobias, depressão e dependência química. Por terem medo dos agressores permanecem calados e não buscam tratamento. Em alguns casos podem desenvolver comportamentos agressivos. Há casos no Brasil, bem como no mundo, de alunos que foram vítimas e que cometeram homicídio e suicídio por não agüentarem as humilhações e agressões.
No caso do agressor há a apresentação de transtornos de comportamentos anti-sociais, delinqüência, uso de drogas, porte ilegal de armas, furtos, indiferença à realidade e crença de que deve levar vantagem em tudo. Há uma relação direta com bullying e a criminalidade.
Conhecimento – Como os pais podem suspeitar que seu filho está sofrendo bullying na escola? E qual a atitude que eles devem tomar?
Suedina – Em casa a criança começa apresentar comportamentos de melancolia e afastamento dos pais. As contas na cantina da escola aumentam, começa a sumir dinheiro de casa ou ela leva mais lanche do que pode comer. Isto ocorre porque o agressor exige que ela o sustente na hora do recreio. Pode aparecer com a roupa rasgada ou parte do corpo machucada por ter apanhado. A vítima se isola, como forma de defesa, por ter medo do agressor que sempre o ameaça de bater ou de humilhar caso conte para os pais/ professores.
Na escola os professores também podem perceber quem é a criança que está sendo vítima. Entre as características estão: isolamento no recreio; mostra-se inseguro, ansioso, tímido na sala de aula; em jogos coletivos é sempre o último a ser escolhido; apresenta-se sempre aflito, triste e contrariado; às vezes apresenta-se com desleixo gradual nas tarefas, aparece com contusões feridas, roupa rasgada; falta às aulas com freqüência e perde constantemente os objetos.
Quanto ao agressor os pais e professores também podem perceber em casa e na escola, pois faz gozações, coloca apelidos, insulta, menospreza e difama. Faz ameaças, bate, picha, dá socos e pontapés. Aparece com materiais escolares, dinheiro ou objetos que compra com o dinheiro que tira da vítima.
Os pais dos alunos que são vítimas devem procurar primeiro a escola para formalizarem que o filho está sofrendo bullying ou que suspeitam do fato. Se a escola não conseguir dar conta desta situação devem procurar o Conselho Tutelar ou a Delegacia da Mulher para registrarem o ocorrido e fazer exames nos casos de agressão física. Feito o boletim de ocorrência se instaura um inquérito para apurar os fatos. Hoje, já é possível que os pais dos agressores respondam judicialmente pelos atos de bullying dos filhos, tendo punições para ambos os lados.
Conhecimento – Como as escolas devem se preparar para evitar essas situações?
Suedina – Em vários países há programas que se objetivam ao desenvolvimento da educação de sentimentos e de valores éticos e morais para melhoria da convivência das relações interpessoais. Há programas estruturados para o anti-bullying em países como Espanha e Inglaterra com telefones disponíveis para crianças envolvidas no fenômeno para que possam falar sobre os abusos e assim ter uma intervenção. Em Portugal os alunos criaram programas de ajuda aos colegas, Liga dos Alunos Amigos, objetivando evitar agressões entre os colegas.
No Brasil temos a ABRAPIA que desenvolve o Programa Educar Para a Paz, tendo a Cléo Fante como uma das educadoras que tem aplicado programas para a conscientização dos alunos e comunidade escolar. Entre um deles está o de se fazer um diagnóstico da realidade escolar e depois de adotar e aplicar estratégias de intervenção e prevenção.
Para a educadora o fenômeno já é um problema de saúde pública pelo reconhecimento dos danos físico-emocionais sofridos por aqueles que estão envolvidos no bullying. Este fenômeno não pode ser extinto, porém pode ser controlado. Além de ser um lugar para aprendizados formais, a escola deve criar novas reflexões e novas práticas de convivência em grupo para formação de cidadãos que se respeitam e se humanizam mutuamente. Qualquer pessoa pode acessar o site da ABRAPIA e verificar quais os tipos de programas que podem ser aplicados nas escolas. Há vários livros sobre o assunto, porém um dos mais indicados está o de Cléo Fante tendo vários projetos de ações na escola para conscientização e combate ao bullying!
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