domingo, 11 de agosto de 2013

O vídeo do Feliciano

Foi engraçado, reconheço. O inusitado da cena deverá fazer esse vídeo ter milhões de acessos. Aqueles jovens libertários, jovens que representam a new age da tolerância e da aceitação das diversidades sexuais, foram muito engraçados e tiraram do baú das boas coisas da música popular brasileira, o “Robocop Gay”, um sucesso dos maravilhosos Mamonas Assassinas, um sopro de genialidade levado por um acidente terrível. Cantando os versos da músicas, improvisaram uma coreografia em homenagem ao Deputado. Foi um escalpo.
No interior da aeronave, que fazia o vôo Brasília-Algum Lugar, aqueles jovens divisaram entre os passageiros a presença do nosso célebre Deputado Feliciano, o mais obtuso dos homofóbicos destas paragens nacionais. Vê-lo ali foi o quanto bastou para que fizessem uma daquelas coreografias toscas, inventadas por jogadores de futebol e cabeças de bagre. Dançaram, cantaram, expuseram-no ao escárnio, enquanto alguém lhes filmava a performance. Uma socióloga, depois “entrevistada”, deu um ar intelectual ao show daqueles jovens engraçadíssimos.
Engraçadíssimos e tão obtusos quanto o Deputado que quiseram afrontar, que foi efetivamente vítima de um episódio, que retratou uma situação muito curiosa: em nome de criticar-se a intolerância, foram intolerantes. Sob o argumento de criticarem quem não aceita a diversidade, acabaram por não aceitar eles mesmos a diversidade do pensamento do Deputado Feliciano. Aliás, a não aceitaram sequer a presença dele.
O pensamento do Deputado passa a anos-luz do que defendo; jamais seríamos amigos e não o reconheceria como meu pastor em hipótese alguma.
Porém, ele possui o direito de defender o que defende, de dizer o que diz, de manifestar-se e, como qualquer mortal, tem o direito de voltar para sua casa, com um mínimo de paz, esteja ele de navio, avião, trem ou nave espacial. Em silêncio, voltando para sua casa, ele merecia ser respeitado e não foi.
Em nome da democracia, somos muitas vezes antidemocráticos. Em nome do amor aos filhos, nós os agredimos. Em nome do amor à ordem pública, abarrotamos cadeias e negamos direitos comezinhos. Em nome da paz pública, inundamos a rua de balas de borracha e gás lacrimogênio. Em nome do amor, matamos a pessoa amada. Em nome da liberdade, calamos quem discorda de nós.
Claro, eram meninos e ficaram extasiados diante da celebridade negativa, mas celebridade, e quiseram desafiar, não apenas o Deputado, que suportou o assédio com dignidade, mas – de forma totalitária e truculenta – todos os que estavam na ala de passageiros do avião. Aqueles engraçadíssimos meninos têm uma longa estrada vida adentro para aprender um pouco mais sobre tolerância.

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